
“Relato de um Náufrago” de Gabriel Garcia Marquez (ASA)
Este é o “relato de um náufrago que esteve dez dias à deriva numa balsa, sem comer nem beber, que foi proclamado herói da pátria, beijado pelas rainhas de beleza e ficou rico com a publicidade e depois foi malquisto pelo governo e esquecido para sempre”. – Gabriel García Márquez
“Relato de um Náufrago” é uma grande obra do romancista Gabriel García Márquez, Prémio Nobel da Literatura em 1982. Como o próprio autor refere “há livros que não são de quem os escreve, mas de quem os sofre, e este é um deles”.
Relato de um Náufrago é, apesar de escrito só em 1970, a transformação romanesca do relato de uma notícia respeitante a um facto ocorrido em 28 de Fevereiro de 1955, altura em que, a bordo de um contratorpedeiro da Marinha de Guerra da Colômbia, caíram ao mar oito tripulantes devido à intensidade da ondulação. A dificuldade em manobrar o barco causada pelo peso excessivo de uma carga de electrodomésticos de contrabando impediu que fossem tomadas as providências necessárias para salvar os marinheiros.
Somente dez dias depois da tragédia é que o único sobrevivente, de nome Luís Alejandro Velasco, dá à costa, a bordo de uma balsa, faminto e quase sem pele, devido às queimaduras solares.
A transformação da aventura em relato pela narração dos factos tal e qual aconteceram (ou tal e qual se lembra o protagonista) caiu no desagrado do governo colombiano – então sob a ditadura do General Gustavo Rojas Pinilla – transformando o até então herói em persona non grata que fica, a partir daí, relegado para o esquecimento sendo-lhe, ao mesmo tempo, vedado o acesso a qualquer tipo de carreira na Marinha.
O relato das desventuras e dificuldades de um náufrago, numa embarcação diminuta, rodeado de tubarões que aparecem pontualmente às cinco da tarde para jantar, tem tanto de romance de aventuras de Emílio Salgari como de uma epopeia de Homero.
Desprovido de qualquer traço de pieguice melodramática e dotado do sentido de aventura e capacidade de encarar as situações mais complicadas com uma pontinha de humor negro, a odisseia de Velasco torna-se, assim, irresistível depois de trabalhada pela pena de García Márquez.
A sinistra pontualidade dos tubarões, que rondam a balsa como abutres vindos das profundezas a partir das cinco da tarde, ombreia com um sentimento de resignação mesclado de esperança que inspiram o náufrago a poupar ao máximo as energias, até chegar a altura da libertação.
O desespero em procurar comida e em mitigar a sensação omnipresente de fome leva-o a situações extremas, traduzidas em episódios caricatos como a tentativa de devorar as solas dos sapatos, uma gaivota viva (e crua) ou, até, a disputar um peixe com o cardume dos seus “amigos” tubarões, transforma este relato na narração de uma luta monstruosa pela sobrevivência com inimigos tão, implacáveis como os ciclopes, sereias, feiticeiras e monstros marinhos de Homero.
É uma obra literária cuja beleza nos faz lembrar obras como Robinson Crusoé ou O Corsário Negro.
Review de: Cláudia de Sousa Dias